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Paraná: indústria, política e futebol

08/02/2010

A encorpada sentença em primeira instância ao Coritiba Futebol Clube refletiu a condição e consideração do Paraná como unidade de segunda classe, em uma federação detentora de reduzido grau de ética ou onde esta é ditada e perpetuada por verdadeiros clãs políticos

As estatísticas econômicas disponíveis reforçam as fortes suspeitas de diminuição da produtividade da indústria paranaense vis a vis a nacional no período pós 2004. Tanto é assim que o Produto Interno Bruto (PIB) fabril do estado cresceu apenas 3% ao ano entre 2003 e 2007 contra 4% do total do aparelho brasileiro. Em sentido análogo, o salário médio real recebido pelo pessoal ocupado na indústria paranaense cresceu 2,5% a.a. versus 4,6% a.a. para o país, correspondendo, em 2007, a 80% da remuneração real média do trabalhador brasileiro.

Tais mensagens não deixam de emitir sinais surpreendentes, especialmente se for examinada a retórica oficial, repleta de vitórias arrasadoras, em diferentes campos, ao longo dos últimos anos. Na verdade, os indicadores antagônicos à pujança do Estado, defendida pelas hostes oficiais e por parcela dos agentes privados, derivam de fatores objetivos, ligados à economia real, e de motivações (ou falta de) políticas.

Pela vertente econômica ressalta a apreciável compressão verificada na produtividade física e na rentabilidade financeira das cadeias produtivas articuladas ao setor rural, devido à concatenação perversa entre três estiagens (2004, 2005 e 2006), restrições de ordem fitossanitárias (febre aftosa e gripe aviária) e distorções da orientação macroeconômica do governo federal. Aliás, as injunções da macroeconomia atingiram outras atividades motrizes na geração de emprego e renda no estado como têxtil, couros, madeira, móveis, papel, borracha, metalurgia e máquinas e equipamentos.

Pelo lado político, surge o frágil arranjo institucional predominante entre os atores públicos e privados do Paraná, o que tem atrapalhado, sobremaneira, a formulação e a execução de um programa estratégico de desenvolvimento, capaz de ensejar a troca das ações exclusivamente voluntárias, esparsas, e, por vezes, duplicadas, pela definição de tarefas sincronizadas que priorizem pelo menos três frentes de atuação: o restabelecimento da influência política do Paraná na órbita federal, o resgate da competitividade do capital social básico, principalmente na área de transportes rodoviário e portuário, e a melhoria dos indicadores sociais.

Até porque seria absolutamente equivocado imputar ao acaso a perda de investimentos industriais importantes, como os da Toyota e da Yokohoma (japoneses) e da Guardian (norte-americana), e a não inclusão da planta de polipropileno no empreendimento superior a US$ 6 bilhões, erguido pela Petrobras em Araucária, o que abriria flancos para a instalação de um polo de matérias-primas plásticas, integrado aos parques eletroeletrônico e automobilístico.

Também não soa correto atribuir ao azar o fato de o Paraná possuir participação diminuta no rateio das cifras do Orçamento Geral da União (OGU). O valor do repasse por emendas de parlamentares caiu 48,7% em 2009, contra queda de 16,7% para os estados do Sul e do Sudeste agrupados. Igualmente constrangedor é o fato de o estado permanecer praticamente à margem da liberação dos minguados recursos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), lançado pelo governo federal, no começo do segundo mandato do presidente Lula, mesmo com o ministro do Planejamento possuindo raízes regionais.

Para encerrar, uma provocação, fazendo uso do episódio da derrocada da marca e instituição centenária “Coritiba Futebol Clube”, em face da “punição exemplar” imposta pela Justiça Desportiva. Por certo, em 6 de dezembro de 2009, além de amargar a descida para a 2.ª divisão do Campeonato Brasileiro, o clube foi vítima de menos de uma centena de bandidos, disfarçados de torcedores, que praticaram aqueles atos violentos mostrados para o mundo.

Mas é impossível negar a vigorosa interferência no episódio, de uma gestão privada pouco profissional para os tempos de globalização financeira, reproduzindo os arcaicos e autoritários paradigmas da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e das federações esta­­duais, referendados pela Justiça, para a qual, conforme relato do presidente da Socie­­dade Esportiva Palmeiras, as cores das tranças dos cabelos dos jogadores fazem a diferença.

Sem entrar no mérito legal da questão, a encorpada sentença em primeira instância (proibição de utilização do Estádio Couto Pereira por 30 jogos oficiais em competições nacionais, acrescida de multa) refletiu a condição e consideração do Paraná como unidade de segunda classe, em uma federação detentora de reduzido grau de ética ou onde esta é ditada e perpetuada por verdadeiros clãs políticos. As experiências recentes de Pacaembu, Porto Alegre e Canindé corroboram a argumentação.
Fonte: Gazeta do povo
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